Framework, método e música

 Na produção musical, um artista busca fazer músicas que agradem ao seu público.

Alguns músicos gostam de se isolar, utilizam seu violão para testar acordes, vão anotando, revisando, enviam o material para um colega músico. Recebe sugestões de instrumentistas, altera o conteúdo, a forma, e por fim, dá se por satisfeito com sua produção. Eventualmente, esta música pode ser juntada a outras de sua produção e pode gravá-las em estúdio. Lançando assim mais um LP.

Outros músicos se reúnem com amigos, começam a improvisar, colaboram e vão anotando na mesa, em pedaços soltos de papel. Vão a bares e apresentam a públicos pequenos aqueles trabalhos inéditos. Veem a reação do público. Apresentam gravações a produtores, elaboram mais e assim fazem suas criações.

Em cada artista conhecido vemos manias, processos ou a falta deles, inspiração e produções diferentes.

Alguns artistas são aclamados pelo público, outros nem tanto. A qualidade da música que o artista apresenta ao público mostra dois componentes que se combinam em grandes sucessos.

O primeiro elemento é o talento dos músicos. Nos perguntamos: “Esta música é boa ?”. O público adora. A melodia é genial! Os versos, então…

O segundo é a produção da música. “Como foi gravada e como foi lançada ?”. Ela foi gravada com qualidade em estúdio de primeira linha. O som está de acordo com a proposta da música. A mídia de lançamento é de boa qualidade, com excelente arte gráfica. Os interpretes fizeram jus ao material.

Traduzindo esta alegoria para o mundo dos frameworks e metodologias, o músico com seu produtor seguindo certa rotina na criação estão de fato, utilizando uma metodologia. Esta metodologia pode atrapalhar o músico ou ajudá-lo na criação. Isto não determina se o músico vai conseguir fazer a música, e muito menos se a música vai ser boa.

Um framework como Scrum, determinaria apenas a necessidade de pontos de inspeção e adaptação. Isto poderia ser atingido testando músicas com platéias selecionadas, apresentando demos para determinados produtores que conhecem bem o mercado, etc. Com este feedback o artista poderia então alterar a música e evoluir o seu produto. Isto também não determina se o músico vai conseguir fazer a música, e também muito menos se a música vai ser boa.

Um framework como Scrum ajuda na medida em que o feedback ocorre mais cedo e continuamente, mas não faz a música ser boa. O que faz a música ser boa, em primeiro lugar, é o músico.

Em software, o trabalho de arquitetura é necessário. A metodologia te obrigará a trabalhar a arquitetura de uma determinada forma com determinados entregáveis. Scrum não te obriga a fazer arquitetura, arquitetura é parte do que é necessário ser feito, e portanto, fora do que um framework obriga. Em ambos os casos, alguém que seja bom arquiteto será necessário para fazer o software. Se não houver alguém bom em arquitetura para fazer o software, o software vai ficar ruim!

As metodologias nos lembram de tudo que é necessário para se fazer um software de qualidade. É preciso arquitetura, design, testes, etc. As metodologias obrigam um passo-a-passo que se propõem a garantir que tudo que é necessário para um software de qualidade vai ocorrer.

Scrum por outro lado, se traduz em práticas que vão ajudar os profissionais a fazer o que seus talentos os permitem, sem tentar amarrá-los. Ainda assim, a arquitetura precisa ser feita, o software tem que ser programado e o teste tem que ser feito.

Para fazer música são necessários bons músicos. Para fazer um bom software são necessários bons programadores. As metodologias nos lembram disso e para isso foram criadas. Nos obrigam a fazer tudo o que tem que ser feito e com isto nos amarram. E muitas vezes nos emperram, tirando o espaço para melhores músicas e criatividade.

Scrum não amarra a produção. É tarefa das pessoas lembrar que cada necessidade tem que ser endereçada com seu respectivo talento. A arquitetura pode ser simplesmente pensada, pode ser rabiscada no papel ou pode fazer parte de um documento formal. A necessidade de fazer arquitetura existe pela natureza do problema (fazer software).

Estudar metodologias é salutar e necessário aos mais jovens e inexperientes. Não para amarrá-los, mas para que eles tenham ciência do que é necessário. É o feijão com arroz de se fazer música.

E finalmente, para fazer boa música, o cara tem que ser bom! Quem se preza como músico precisa saber do seu riscado.

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